Memorial de Clarissa Quintanilha

Passado, presente, futuro: (re)vivendo passos formativos



Minha infância permitiu-me crescer imersa na vila onde morava, no bairro de Santa Rosa, na cidade de Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Sinto o cheiro de terra molhada caracterizada pelos dias chuvosos do inverno. O quintal da minha casa era o meu refúgio, nele eu era princesa e bruxa, professora e médica, atriz e bailarina, palco do meu mundo imaginário. Lá no quintal as brincadeiras eram vivas e muito reais.


No âmbito escolar, desde os seis meses de idade, vivia na escola, filha de professora e afilhada de diretora/proprietária. A escola era um lugar que me auxiliava a descobrir as “coisas do mundo”. Vejo as salas com vários livros, brinquedos, papéis, tintas, lápis de cor, giz de cera, tesouras, barbante, cola comum, colorida e trabalhinhos de arte enfeitando o ambiente. Ah, como era bom ser aluna da Creche Escola Bem Viver!

“Chegou a hora de mudar de escola e aprender a ler e a escrever”. Palavras proferidas pela minha mãe, aos meus cinco anos de idade. Mudanças são necessárias e importantes para o nosso crescimento psíquico, porém muitas transformações em nossas vidas são acompanhadas de dor e/ou tristeza. Sim, a mudança para a nova escola não foi agradável. Aquele ambiente acolhedor, amoroso e protetor transformou-se em ordem, separação e solidão. Agora já não era mais a Clarissa e sim uma aluna.

Ao chegar à nova escola, todos olharam a aluna nova; os grupos estavam formados e pareciam coesos. Recordo dos recreios em que fiquei sozinha na imensidão daquele pátio. Demorei um bom tempo para adaptar-me àquele ambiente. Todavia, aos poucos fui fazendo amizade e ficando conhecida por ser irmã do Juninho, meu irmão que de “inho” não tinha nada... Sempre foi forte e valentão, no colégio era respeitado e muitos tinham medo dele. Por fim, acabaram por me respeitar também. Fui entrando na “regra do jogo”, aprendendo a lidar com as astúcias (CERTEAU, 1994), percebendo que o mais esperto, o mais forte era querido e acolhido pelos demais. Sim, eu cometi bullying , presenciei e sofri tal violência institucional.


Tal percepção de ter vivenciado os três papéis (vítima, testemunha e agressor) só entendi após a realização de uma pesquisa monográfica intitulada Um olhar exploratório sobre a percepção do professor em relação ao fenômeno bullying , como trabalho de conclusão do curso de Pedagogia na Faculdade de Formação de Professores (FFP/UERJ), no ano de 2011. Nessa pesquisa percebemos que muitos professores conhecem o fenômeno bullying, seja no cotidiano escolar, seja através das suas histórias de vida. Entretanto, existe carência de uma reflexão mais profunda sobre o tema que favoreça a escuta dos/as professores/as em relação a essa violência institucional na busca por um ambiente educativo mais acolhedor, compreensivo e respeitoso das diferenças em uma perspectiva transdisciplinar.


Chegou a época do vestibular e tive que escolher uma profissão. Escolhi fazer Pedagogia e fiquei surpresa ao receber apoio da minha mãe nessa escolha. Todavia, percebo que, se tivesse escolhido Engenharia, Medicina ou Direito, ela teria mais orgulho de mim. Enfim, assumir esta escolha com responsabilidade não é uma tarefa fácil, mas essa é uma das tantas dificuldades que uma professora encontra, não é mesmo? Por fim, passei no vestibular e encantei-me com a Educação; oficialmente a jornada docente iniciou-se...


Ter sido aluna da Faculdade de Formação de Professores da UERJ proporcionou-me questionar, refletir, compreender o papel e a importância da educação para o nosso país. Todavia, só vivenciei reflexões sobre uma formação docente transdisciplinar após ter participado da pesquisa, Subjetividade e trans/formação do adulto no ambiente educativo: trabalhando com histórias de vida e processos de individuação


.Atrelando o aprofundamento teórico da psicologia analítica, a participação nas oficinas e a vivência de uma educação transdisciplinar, que valoriza a complexidade do ser humano, a escuta de si e do outro, a arte, o imaginário, a ecologia, percebi o quão importante é ter uma formação transdisciplinar. Pode-se dizer que essa pesquisa foi o germe do meu interesse pela educação transdisciplinar, porém, revisitando a minha história, percebo que sempre fui uma menina curiosa e não satisfeita com o que a escola me ensinava, sempre tive a sede de conhecer o mundo e foi com os mais velhos que iniciei esta jornada... Como eram bons os papos que tinha com a minha avó Lucy, que sempre contou suas histórias da infância, suas peripécias, seus desafios em ser mulher, mãe e trabalhadora!


Ao concluir o curso de Pedagogia, fui morar em São Paulo, especializei-me em Arteterapia e Expressões Criativas na Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo (FACIS) e em Psicopedagogia Clínica e Institucional na FAMATH. Realizei alguns cursos com abordagem transdisciplinar, tais como: O desenvolvimento do potencial criativo do educador para a transdisciplinaridade e Caminha branca-arte em movimento, ambos na Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ). No ano de 2013 auxiliei a coordenação de um curso/oficina ministrado na Faculdade de Formação de Professores – FFP, intitulado: Trabalhando o potencial criativo e a história de vida do educador para a transdisciplinaridade ; nesse processo pude vivenciar a importância de fomentar uma formação atravessada pelo paradigma transdisciplinar, tive a oportunidade de perceber que é possível, sim, uma prática pedagógica diferente do padrão disciplinar.


Em seguida fiz faculdade em Psicologia Clínica pela FAMATH (Faculdades Integradas Maria Thereza), formação em terapia de casal e família com vínculo na ATF-RJ (Associação de Terapia de Família do Estado do Rio de Janeiro) e Mestrado em Educação pela UERJ-FFP. Atuei em diversos espaços públicos e privados da educação, desde professora da educação básica até como professora do corpo docente do curso de pedagogia, engenharia civil, direito e administração da faculdade CNEC- Ilha do Governador, sou também psicóloga clínica.


Atualmente, busco uma formação que atravessa vários saberes. Percebo que essa necessidade se deu principalmente a partir de algumas experiências que tive no âmbito escolar. Iniciei meu trabalho na escola aos quatorze anos de idade. Como mencionado, minha madrinha tinha uma creche/escola e foi lá que comecei a me aventurar no campo docente. Foi maravilhoso iniciar a formação na escola na qual tinha tantas lembranças boas. A minha tarefa principal era trabalhar com a recreação das crianças, e aos poucos fui articulando trabalhos corporais com o ensino da língua inglesa. Tinha total liberdade para usar a minha criatividade e a das crianças, elas nos auxiliam muito quando enrijecemos o nosso pensar. Hoje posso dizer que intuitivamente vivenciei uma educação interdisciplinar, pois articulei a disciplina Língua Inglesa com o corpo.



Todavia, nas outras instituições em que trabalhei como alfabetizadora e auxiliar de orientação pedagógica pude observar a forte influência do padrão patriarcal (BYINGTON, 2004). Esse padrão é próximo ao ensino tradicional, caracterizado pela lógica, separação, organização, codificação, hierarquização e uma linearidade no campo do saber. “O padrão patriarcal cultiva a tradição e o poder elitista de um polo sobre o outro em todas as polaridades para preservar a organização já obtida no passado” (BYINGTON, 2004, p. 177). As ideias de que o professor é o dono do conhecimento e de que o saber está apenas nos livros e na escola fazem parte do padrão patriarcal. Não satisfeita com essa forma de ensino, busco uma formação docente e uma escola diferente dessa que está posta, muito questionada pela visão freiriana de “educação bancária” (FREIRE, 1981), e percebo que um dos caminhos que valorizam uma educação integral, que englobe o corpo, a mente, o sentimento e a intuição, é a formação docente voltada para a transdisciplinaridade.


A seguir será relatada uma experiência que marcou meu processo formativo em prol de apontar alguns passos do meu percurso enquanto docente. Nota-se que a experiência tem um profundo potencial formativo, uma formação que não opera na lógica disciplinar. Delory-Momberger (2014), enfatiza que a lógica desses saberes são outras. Ou seja, o saber da experiência não é facilmente aprendido, é ligado à ação, é compósito, parcelado, heterogêneo e descontínuo. Em outras palavras, o saber da experiência e o saber disciplinar não nasceram nas mesmas estruturas simbólicas.





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